Sobrevivi aos 27

Ontem foi o meu aniversário. 19 de julho de 2015. E pela primeira vez na vida, passei longe de casa, dos meus amigos e da minha família. Mas por outro lado, conheci pessoas fantásticas aqui em San Francisco que me fizeram companhia na noite de comemoração. Foi inesquecível.

Durante o dia fui a praia para aproveitar o calor – fora do normal na cidade – sozinho, para meditar e refletir sobre o último ano que passou (os 27), que não foi nada fácil,  mesmo.

Li alguns artigos que falavam sobre a tal crise dos 27. Nunca fui de acreditar nessas bobagens que dizem sobre a vida e seus sofrimentos em uma determinada idade. Vários artistas se foram aos 27 anos.

Foi quando a depressão bateu forte que descobri o que é o inferno, onde ele fica, como funciona e me fez prometer a mim mesmo nunca mais querer voltar pra lá. Por isso decidi escrever este post, para ajudar pessoas que talvez estejam passando pelo mesmo momento.

A palavra depressão é usada com um certo tom de brincadeira hoje em dia. Totalmente banalizada. Mas só quem passou por isso e sentiu na pele (na verdade, na mente) sabe que é um tema sério e delicadíssimo. Eu mesmo, anos atrás, achava que depressão era viadagem, coisa de gente fresca. Acompanhava um amigo que passava por este momento ruim e achava que era loucura da cabeça dele. E pela ironia do destino, cá estou voltando desta viagem.

A doença em si se desenvolve a partir de “gavetas” que começamos a abrir em nossa mente. Digo começamos porque somos nós que fazemos as causas. É como se nós ativássemos várias partes do nosso cérebro que começam a nortear os nossos pensamentos diários, e, aos poucos, nos destruir em vários sentidos da vida, pelo nosso comportamento.

Aos 27 anos, vivi uma grande crise. Crise esta que mexeu com toda a minha estrutura psíquica. Como canceriano, muito emocional e extremamente inquieto, vivia na correria, realizando várias atividades durante a semana. Me dedicava de corpo e alma entre dois trabalhos, um como empresário e outro como funcionário, tinha aulas de inglês, facilitava cursos esporadicamente e dava palestras sobre inovação e empreendedorismo.

Atuava como voluntário em uma ONG que faço parte desde 2009, organismos sociais ligados ao governo, organizava eventos voltados ao empreendedorismo, dava consultoria gratuita para amigos e alunos dos cursos que lecionei e ainda tinha que dar atenção para a família, amigos e casamento.

Neste meio tempo li vários livros sobre comportamento humano e psicologia. Miguel Nicolelis, John Medina, Flip Flippen e Augusto Curi. Livros que pretendiam nos ajudar, entendendo melhor o nosso cérebro. Mas o que aconteceu comigo foi uma grande tempestade emocional, cheia de pensamentos negativos que me fizeram resgatar vários traumas da minha infância que influenciavam o meu comportamento diário. E esse processo foi totalmente desgastante e destruidor.

Estava em um trabalho onde a internet era lenta e isso me irritava profundamente. Vinha avisando os meus gestores sobre o problema e nada de solução. Uma das “chefes” dizia que eu era uma pessoa que reclamava muito, pelo fato de eu reportar um problema. Então passei a guardar este sentimento diário, fumava cigarro que nem um louco e acabava descontando tudo quando chegava em casa, no meu parceiro. Foi quando o meu casamento começou a desabar por pura irresponsabilidade minha.

Ok. Estar casado aos 27 anos talvez seja uma grande burrada. Mas todos sabem que o amor é cego e quando estamos apaixonados fazemos escolhas sem pensar duas vezes. E não me arrependo disso. Foi um grande aprendizado e crescimento pessoal para ambos. Mas pela minha imaturidade e com os traumas vindo à tona, lá se foi um sonho de ter uma casa juntos, viagens, família, amigos, tudo. E a sensação de ter isso tudo acabando é realmente pavorosa.

Não bastava o casamento estar chegando ao fim, comecei a enfrentar desafios no meio profissional. Era uma época que conseguia entregar muito resultado no meu trabalho. Me sentia, sim, um profissional de sucesso. Ganhava bem somando o salário e projetos paralelos como empresário. Podia viajar, ter novas experiências e bancar os meus estudos. Porém, com a minha atuação nos palcos como palestrante e apresentador de alguns eventos, outras pessoas se sentiram ameaçadas com a minha existência e, logo, começaram a me atacar.

Não querendo me fazer de vítima, mas, quem viveu estas relações comigo sabe muito bem do que estou falando.

O mercado profissional é extremamente competitivo no capitalismo ocidental. As pessoas que se agarram ao trabalho e esquecem os outros setores da vida acabam ficando doentes e estão dispostas a fazer de tudo, inclusive acabar com a vida e carreira dos outros para se manter no poder. Eu não tenho receio algum de dizer isso – sabendo que quem trabalhou comigo poder ler este post – pois tenho consciência de todos os meus atos e, quem viveu a guerra fria, sabe melhor do que eu o que é isso.

Resumindo: vivia uma pressão constante em um emprego onde, mesmo gostando muito do que eu fazia, entregando resultado e qualidade, as pessoas começaram a me perseguir e dificultar as atividades. O que é engraçado, pois como equipe, deveriam trabalhar juntas e não separadas, competindo um contra o outro. E isso é realmente desmotivador. E para mim, ficou claro que pessoas orientadas em conceitos do século XX, de competição e não de colaboração, irão morrer pensando assim.

Ouvi dizer coisas do tipo “Você não trabalha para ser felizinho”, “O mercado é uma selva onde um devora o outro”, “Ou você mata o seu concorrente ou você morre”. E, sem generalizar, todas essas frases saíram das bocas de pessoas acima dos 40, que ainda não se adaptaram ao novo jeito de trabalhar que a geração Y (eu) chegou para fazer.

Bater ponto, não ultrapassar 1 hora de almoço, 5 dias de trabalho, 40 horas por semana, de segunda à sexta, estar no escritório todos os dias – mesmo sem estrutura para trabalhar – é algo que os chefes adoram ver os funcionários fazendo. Talvez pra saciar a vontade de ver os seus “escravos” dentro da senzala, diariamente. Dando ordens e limitando o potencial profissional. Negando pedidos, sugestões e acabando com a sua motivação, criatividade e força de vontade para inovar. Tudo isso foi um grande catalizador no meu processo de depressão, porque eu não queria viver isso, mas precisava do dinheiro pra pagar o aluguel.

A energia estava tão baixa que perdi a vontade até de meditar. Parei de praticar exercícios físicos. Parei de contemplar a vida. E comecei, então, a alimentar a mente com pensamentos negativos. O que me fazia não encontrar mais saídas para o mundo que vivia naquele momento. Era um presídio tenebroso e sem colegas de cela, como se fosse uma solitária. A mágoa, o ódio e o ressentimento é um veneno que a gente toma, pensando que o outro irá morrer.

Sentia o meu peito doer, parecia que o meu coração iria parar a qualquer momento e as olheiras de cansaço (mental e físico) já faziam parte do meu dia a dia. Foi quando em agosto de 2014, em um dia “normal” de trabalho, cheguei no parapeito do prédio onde trabalhava já decidido a me jogar, cometer um suicídio e acabar com toda aquela angústia e sofrimento que estava me destruindo aos poucos.

Não sei o que passou pela cabeça, mas naquele momento, uma pontinha de esperança, me fez correr sozinho para o hospital. Me deram um antidepressivo, me afastaram por 4 dias do trabalho e me orientaram visitar um psiquiatra.

Mesmo afastado do serviço, de atestado, decidi trabalhar em um grande evento da empresa no dia seguinte. Isso por respeito ao presidente do grupo, líder nato, que me ajudou muito neste processo por simplesmente se preocupar, apenas. Porém, foi a pior decisão que tomei, no meio do furacão. Com o emocional abalado, acabei agindo de forma incorreta e, sem empatia nenhuma dos “gestores” da empresa, fui acachado não só por eles, mas pelos puxa-sacos, que fizeram da minha atuação, em dois dias, uma catástrofe profissional.

O tempo passou e não existia mais felicidade em nada. Não me sentia bem ao falar em público. Engordei uns 7 kilos, terminei o meu casamento, entreguei o apartamento, vendi tudo que havia “construído” juntos. Fui morar com um amigo e continuei no emprego, desgastante, mas com o apoio de excelentes profissionais que faziam parte da equipe.

Bebia cerveja todos os dias para tentar sentir prazer em algo. Fumava mais do que a Caipora.

Comecei a tomar remédios para depressão em dezembro. Transpirava que nem um louco a caminho do escritório. Parecia que todos os poros haviam se aberto. O coração batia aceleradíssimo e a respiração ficava cada vez mais ofegante. Eu estava realmente vivendo um inferno na terra.

Ao voltar na 3a consulta no psiquiatra, perguntei se não havia outro meio de melhorar, porque o remédio me fez emagrecer 3 quilos, me fazia transpirar demais e tinha visões ao andar na rua. Ele me disse que havia outro remédio, que me faria engordar e só traria resultados 2 meses depois de iniciar o tratamento. E a última opção seria me tratar sem remédios, mas que ele não faria sem.

Tentei outra psiquiatra que se negou a tratar a doença sem remédios. Ela disse que em 40 anos de consulta, nunca viu alguém se curar sem remédios e que seria loucura e responsabilidade total minha, por ser perigoso, parar o tratamento com os remédios.

Eu voltava pra casa chorando, praticamente todos os dias. Ninguém sabia o que eu estava passando. Fiquei  afastado das redes sociais, não conseguia bolar nada, fazer propostas para clientes, palestras, aulas, NADA!

A minha sorte foi que fui morar com um amigo psicólogo. E no meio disso tudo, decidi parar de tomar os remédios para depressão, por conta própria, sem consultar os médicos. O que foi uma decisão arriscada, porém ousada. Me baseei nos livros dos mesmos caras que haviam me desconcertado, para entender melhor o funcionamento da mente.

Logo após o natal, parei de tomar cerveja. Combinei com o meu amigo de entrar em uma nova academia. Segui firme e forte uma dieta rigorosa. Enfrentei os mais diversos desaforos no trabalho. Engoli incontáveis sapos. E, somente durante o carnaval, me vi curado de uma depressão que, por pouco, poderia ter me matado.

Meses atrás, um amigo desistiu de viver. Ele se jogou do 10º andar. Dias antes, o encontrei na Av. Paulista, mas nem imaginava que ele estava passando pelo mesmo que eu. Hoje penso “eu poderia ter ajudado”.

Agradeço, principalmente, aos meus amigos. Se não fosse a presença deles, eu não sei se eu estaria aqui agora escrevendo este texto. Não sei se eu estaria aqui continuando uma vida, cheia de esperança, energia, alegria e gratidão. E me coloco à disposição, até o último dia da minha vida, para incentivar as pessoas.

Não aconselho ninguém parar de tomar remédios para depressão por conta própria. O que posso dizer, com convicção, é que tenham bons amigos por perto, sempre! E que façam atividades físicas, seja uma corrida, natação ou mesmo academia. Um corpo saudável tem igualmente um mente saudável.

Ah! E fui mandado embora do tal emprego desgastante. Aproveitei o momento e abri mão de tudo no Brasil, resumi a minha vida em uma mala e vim morar em São Francisco, na Califórnia. Agora, sem previsão de volta.

Enfim, sobrevivi os 27.

Como me disse um sábio “Agora você é um pássaro que pode voar”.

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8 respostas para Sobrevivi aos 27

  1. Muito bom o post, parabéns por sua coragem. E fiquei feliz de ver que a foto sua que ilustra o post fui eu quem tirei 🙂 Que venha os próximos 27

  2. Muito bom o post, parabéns por sua coragem. E fiquei feliz de ver que a foto sua que ilustra o post fui eu quem tirei 🙂 Que venham os próximos 27

  3. Renato disse:

    Excelente post Gustavo! Se sua intenção era incentivar as pessoas, conseguiu!
    Parabéns pela vitória e muito mais pela superação e coragem de se mudar!
    Me incentivou muito!
    Boa sorte! =)

  4. Wyring Paula Chu disse:

    Que profundo isso Gu, não sabia desse seu momento, mas entendo muito bem, meu noivo ainda está em tratamento de depressão, e os sintomas são bem esses, o lance todo é que nem todo mundo consegue se entender, ou ter a ajuda de alguém, perder o ânimo da vida, é morrer em vida, não há nada mais sufocante e degradante do que isso…, mas, pelo que vi, você está melhor, e isso que importa!
    Muita luz ai na Califórnia, curta tudo…, preencha esse seu peito, alimente sua alma!, VC merece tudo de melhor em sua vida! Da sua amiga Ru!

  5. Vanessa disse:

    Cara, passei pelo mesmo, saí desse inferno sem remédio, no meu caso foi sozinha na terra e com o cara lá de cima me segurando a mão.

  6. Garota eu vou pra California, irado!!!
    Flow the flow!

  7. CRISTINA disse:

    É uma doença silenciosa e cercada de preconceito, incredulidade…sim, é tida muitas vezes como frescura e como algo que logo dá e passa. Quem sabe tenha sido por isso que seu amigo preferiu não falar nada. É tudo bem dolorido. Que bom que passou sem maiores traumas.🌷

  8. Pingback: Como se manter mentalmente saudável acompanhando os noticiários | Roda Viva

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