Coisas que você descobre quando abandona os noticiários

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Nas aulas de geografia, os professores falavam muito sobre política. Antes de prestar vestibular e fazer ENEM, acreditava que ler jornais era importante e, que ter consciência do que acontecia no mundo, me faria ser um cidadão melhor. Porém, se passaram quase 10 anos desde que decidi abandonar os noticiários e, hoje, a ideia de seguir jornais e revistas me parece um quanto absurda.

É difícil viver esse estilo de vida quando ainda existem milhões de pessoas presas nesse hábito de acreditar no que os jornais dizem. Mesmo em tempos de internet, ainda escuto de pessoas que, ao rebaterem um debate onde as opiniões são baseadas em noticiários, dizem que eu que sou o mal informado da história.

Para ser mais claro, estou falando da grande mídia. Canais de TV, Rádio e Jornal que sempre foram orquestrados pelas grandes corporações. As mesmas que continuam “informando” a população e que, agora, migraram para a internet com a mesma estratégia de sempre: manipular as pessoas.

Não estou aqui pra julgar o jornalismo, quem é bom ou ruim, mas para alertar como ele é feito. Existe uma grande diferença entre assistir uma reportagem de 5 minutos da Globo News, sobre o que acontece na guerra no oriente médio e ler um artigo de 5 mil caracteres onde explicam muito bem o que se passa por lá.

Certa vez, dividi quarto num hostel com um Israelita. Perguntei a ele, com um certo olhar de preocupação, como ele lidava com a guerra e violência por lá. Ele me respondeu com um sorriso de quem respondia novamente à mesma pergunta: de que Israel é um país lindo, cheio de lugares seguros pra se visitar, mas que a mídia só mostra os conflitos na região da Faixa de Gaza, único lugar onde existia a violência.

Nós teimamos em cultivar hábitos que facilitam a nossa vida. E consumir notícias “mastigadas” pela grande mídia é um deles, um hábito desastroso. Não só para o indivíduo que a lê, mas para toda a sociedade que consome e vive baseada nessas “notícias”.

O que descobri neste meio tempo, é que a vida fica muito mais leve quando dedicamos mais tempo para conteúdos que irão nos inspirar, nos informar, incentivar a construir, não ter medo e nos fazer aprender algo novo, todos os dias.

Vamos as contas? O Jornal Nacional têm em torno de 45 minutos (intercalado por comerciais) por dia. São 45 minutos X 6 dias por semana – já que no domingo exibem o Fantástico – o que totaliza 270 minutos por semana. 1080/m por mês. 12960/m por ano. Chegando a 216 HORAS anuais. São 9 dias da sua vida jogados no lixo.

Entendo que mudar de hábitos deve ser difícil. Assim como, agora, tenho deixado de seguir TODAS as páginas de política no meu Facebook. É doloroso, mas decidi que não irei gastar energia com isso. Portando, imagino o quão difícil deva ser para alguém que está acostumado a se informar pelos mesmos meios desde que se considera como gente.

Algumas coisas que você irá reparar se abandonar os noticiários por um mês:

1) Você se sente melhor

Um dos primeiros sintomas que você irá sentir a mudança será no seu humor. Enquanto diversas pessoas chegam no escritório com cara fechada ou com energia baixa pelos últimos “acontecimentos” na sociedade, você chegará todo feliz porque assistiu o último episódio de um documentário sobre o Cosmos ou da sua série favorita.

Não é à toa, que eles fazem de tudo, usando as mesmas estratégias, para disseminar sentimentos em massa. E enquanto isso, por trás de toda uma atmosfera de luto, de medo ou de alegria geral, líderes tomam decisões na calada da noite que, convenhamos, não irão comover uma população em êxtase por algo bom ou ruim.

A notícia em si não está interessada em criar uma amostra precisa. Eles selecionam aquilo que é 1) incomum, 2) terrível, e 3) provavelmente irá ser popular. Assim, a ideia de que você pode obter um sentido significativo do “estado do mundo”, observando as notícias, é absurda.

2) Você não estava conseguindo realizar nada assistindo as notícias

Se você perguntar a alguém o que eles realizam assistindo a notícia, você irá ouvir noções vagas como: “É o nosso dever cívico para ficar informado!” Ou “Eu preciso saber o que está acontecendo no mundo”, ou “Não podemos apenas ignorar estas questões”, sendo que nenhum dos quais respondem à pergunta.

“Ser informado” soa como uma realização, mas implica que qualquer informação fará isso. Você pode se tornar informado, por exemplo, lendo um horário de ônibus.

Um mês depois que você parou de acompanhar os noticiários, é difícil nomear qualquer coisa útil que tenha sido perdida. Torna-se claro que esses anos de observação de notícias não representam praticamente nada em termos de melhoria na sua qualidade de vida, conhecimento duradouro ou sua capacidade de ajudar os outros. E isso sem falar do custo de oportunidade. Imagine se você passou esse tempo aprendendo uma língua, ou lendo livros e ensaios sobre algumas das questões que eles mencionam nas notícias.

Mais vale gastar esse tempo precioso com realizações. Que seja um exercício, passar tempo com família, amigos ou estudar. Fazer uma pesquisa minuciosa e ir à fundo sobre algum assunto que realmente lhe interessa e terá impacto na sua vida. Somente assim, teremos realizado algo.

3) A maioria das conversas relacionadas a eventos atuais são apenas pessoas falando de coisas estúpidas

“Vai te ajudar a ter conteúdo pras conversas diárias!” até aí, não vi nenhuma realização. Com o tempo, fora dessas rodas de conversas onde os assuntos são os mesmos, você irá reparar o quão absurdo é gastar tempo com assuntos que são irrelevantes para a sua vida, para a sua comunidade e para sociedade com um todo.

Neste 10 anos, um dos programas no qual já havia abandonado desde a 3ªa edição, foi o Big Brother Brasil. Me lembro de, por volta de 2010 ou 2011, estar pesquisando conteúdos pra bolar um artigo sobre comportamento de consumo quando, abro e Facebook e vejo quase todo mundo falando sobre uma tal de Maria, que havia vencido o negócio. A minha reação foi postar “gente, quem é Maria?”

São tantas coisas boas que perdemos somente pelo fato de se sentir obrigado a assistir um programa ou um noticiário que todos assistem que, daria pra escrever um livro. No meu caso, dediquei muito deste tempo para artigos online, que foi de onde encontrei pessoas fantásticas onde, juntos, desenvolvemos conversas prazerosas sobre determinado assunto qualquer bem distante do que a grande mídia estava falando.

Depois de um mês sem acompanhar os noticiários, tenho certeza de que você irá ter a mesma sensação. Os assuntos serão outros…

4) Existem maneiras muito melhores de se manter “informado”

Todos nós queremos viver em um sociedade bem informada. Os noticiários informam sim as pessoas. Mas não acredito que informam bem.

Existem aos montes fontes de “informação”. A parte traseira da sua embalagem de shampoo contêm informação. Hoje há muito mais lá fora do que podemos absorver, então temos que escolher o que merece o nosso tempo. A notícia fornece informações em volume infinito, mas com profundidade muito limitada, e é claramente destinada a agitar-nos muito mais do que educar-nos.

Cada minuto gasto assistindo notícias é um minuto que você está indisponível para aprender sobre o mundo de outras maneiras. Os brasileiros provavelmente assistem a cem milhões de horas de cobertura de notícias todos os dias. Isso é um monte de livros não lidos, por outro lado.

Leia três livros sobre um tema e você sabe mais sobre ele do que 99% do mundo. Preste atenção nas notícias o dia inteiro, por anos, e você terá uma consciência distante, com a mesma opinião de todos aqueles que assistem os noticiários: rasa e superficial.

Se apenas nos preocupamos com a amplitude da informação, e não com a profundidade, não há muita distinção entre “ficar informado” e ficar desinformado.

Aproveite a internet. Existem ferramentas que possibilitam você montar o seu próprio “jornal” diário, pelo Twitter. Páginas no Facebook de jornalistas independentes, figuras públicas que não recebem dinheiro de grandes corporações. Livros que estão disponíveis, de graça, para download. Informação é o que não falta.

5) “Estar preocupado” nos faz sentir que estamos fazendo algo enquanto na real não estamos fazendo nada

Os noticiários geralmente são sobre a injustiça e a catástrofe, e naturalmente nós sentimos incomodados ignorando histórias em que os povos estão sendo feridos. Por mais superficiais que os noticiários de TV possam ser, os problemas relatados neles são (geralmente) reais. Muito mais real do que eles podem nunca parecer através de uma televisão. As pessoas estão sofrendo e morrendo, o tempo todo, e ignorar uma descrição de qualquer sofrimento, até mesmo uma descrição cínica e manipuladora, faz nos sentir culpados.

O mínimo que podemos fazer é não ignorar a notícia, pensamos. Então nós assistimos na TV, com olhos molhados e nós em nossas gargantas. Mas ficar neste nível de “preocupado” não está realmente ajudando ninguém, exceto, talvez, para aliviar a nossa própria culpa um pouco por ter ligado naquele canal ou ter aberto aquele vídeo no Facebook.

E eu me pergunto se há um tipo de “efeito de substituição” nesse processo. O senso de “pelo menos eu me importo” pode realmente nos impedir de fazer algo concreto para ajudar, porque assistindo com simpatia não precisamos enfrentar a realidade de que não estamos fazendo absolutamente nada a respeito.

Assistindo desastres acontecendo, mesmo enquanto não fazemos nada, nos sentimos compassivos do que desligar. A verdade é que a grande maioria de nós irá fornecer absolutamente nenhuma ajuda para as vítimas de quase todas as atrocidades que acontecem neste mundo, televisionado ou não. E isso é difícil de aceitar. Mas se pelo menos pudermos mostrar preocupação, mesmo para nós mesmos, não teremos absolutamente aceito isso. Podemos permanecer não envolvidos sem sentimos envolvidos.

Esta pode ser a maior razão que temos medo de desligar os noticiários. E pode ser a melhor razão para fazê-lo.

E você? Já abandonou os noticiários? O que você notou?

*Text adaptado e traduzido de David Cain

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Sobre Gustavo Santi

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